

Fiz dois vestidos iguais, usei um deles quase diariamente por mais de um mês, este é chamado vestido de viver. O outro, que ficou guardado no armário, é o de morrer. Após o período de uso, ao posicionar um ao lado do outro, os rastros deixados no tecido do vestido usado o diferencia do outro. Manchas, fios puxados e o próprio desgaste do material, mostram que é impossível viver sem deixar marcas em nós mesmos e nos outros.
Uma das referências para esse trabalho, foram as fotografias post-mortem, em que recém-mortos posavam para uma fotografia, muitas vezes juntos à família, viva. Devido ao difícil acesso à fotografia, muitas vezes aquele foi o único registro fotográfico da pessoa na sua vida inteira, aliás, na morte. A família arrumava e vestia o corpo para guardar o registro do ente querido para a eternidade.
Logo relaciono essa tradição já esquecida a outra que ainda perdura nos tempos de hoje: arrumar o corpo para o velório com roupas bonitas, o preparando para o sono eterno. Como se aquela pessoa precisasse que estar perfeita e em sua melhor forma para ser enterrada a sete palmos.
E ainda questiono o hábito de guardar roupas para ocasiões especiais, mas que muitas vezes ficam esquecidas no fundo armário sem nunca serem usadas. Como se assim pudéssemos evitar que elas se sujassem, desgastem e estiverem perfeitas para um momento que nunca chegará. As marcas da passagem do tempo são condição inevitável de estar vivo.
Fotografias por Isadora Quintana